Livros
A psicologia do esporte ao pé da letra
É comum ouvir, daqueles que se interessam mas ainda não atuam na área de psicologia do esporte, comentários sobre a escassez de bibliografia e a dificuldade de encontrar títulos com alguns anos de lançamento. Parte dessa reclamação é verdadeira. As bibliotecas com os maiores acervos em psicologia do esporte estão nas faculdades de Educação Física, e não nas de Psicologia, o que contribui muito com o mito da falta de produção. Vale lembrar que só a biblioteca da Escola de Educação Física e Esporte da USP conta com mais de 50 títulos de vários países, além de vários periódicos internacionais, especificamente da área.
Consultando as livrarias virtuais, também é possível encontrar centenas, senão milhares de títulos que vão de temas gerais com grandes apresentações da área até livros específicos sobre personalidade, motivação, treinamento mental ou coesão em equipes esportivas, nas mais diversas linhas de atuação, com grande destaque para a produção behaviorista e cognitivista – em outros idiomas que não o português. Apesar da grande quantidade de material internacional, fruto de um século de trabalhos na área, no Brasil também temos publicações com quase 40 anos, demonstrando o longo caminho já percorrido. Editado pela editora Civilização Brasileira, em 1964, temos “Futebol e Psicologia” de Emílio Myra y Lopes e Athayde Ribeiro da Silva. Nessa obra podemos conhecer um pouco do trabalho do psicólogo Athayde realizado junto à Seleção brasileira de futebol bicampeã mundial em 1962.
É do psicólogo João Carvalhaes, pioneiro da psicologia do esporte no Brasil, o livro “Um Psicólogo no Futebol: Relatos e Pesquisas” (Editora Esporte Educação, 1974). Tendo atuado no São Paulo FC durante 19 anos e na Seleção brasileira de futebol campeã em 1958, Carvalhaes descreve sua forma de intervenção nessas equipes e discute, com base nos referenciais teóricos da época, temas como perfis psicológicos e dinâmica de grupo. Apesar de históricos, esses dois títulos estão fora de catálogo já há algum tempo.
Na década de 80, foram traduzidos alguns livros que durante vários anos foram a referência tanto para trabalhos práticos como acadêmicos. “Psicologia nos Esportes: Mitos e Crenças”, de Robert Singer (Harper & How, 1982), “Psicologia no Esporte”, de Bryant Cratty (Prentice Hall do Brasil, 1983) e “Esporte: Uma Introdução à Psicologia”, de Alexander Thomas (Ao Livro Técnico, 1984) foram consideradas obras de referência, entre outros fatores pela falta de produção brasileira. Nos anos 90, essa realidade se transforma com a edição de várias obras, como a de Olavo Feijó, “Corpo e Movimento: Uma Psicologia Para o Esporte” (Shape, 1992), em que, a partir do referencial da psicologia existencial, o autor discute e propõe uma forma de intervenção sistêmica e holística no esporte. Nesse mesmo ano é lançado “Psicologia do Esporte: Teoria e Aplicação Prática”, de Dietmar Samulski (Imprensa Universitária/UFMG), com uma apresentação abrangente de temas relevantes em psicologia do esporte e os vários campos de atuação possíveis, constituindo-se num título indispensável para quem atua ou deseja atuar na área.
Em 1997, fruto de um trabalho que envolveu alunos e professores de vários cursos de Educação Física, surge “Psicologia do Esporte: Temas Emergentes” (Ápice), organizado por Afonso Machado, com uma vasta discussão sobre a relação entre Psicologia e esporte. Também nesse ano é lançado “Psicologia do Esporte” (Alínea), organizado por Marcelo Buriti, em que são apresentados vários relatos de pesquisa e considerações sobre temas como stress, iniciação esportiva e torcida. Em 1998, Benno Becker Jr. e Dietmar Samulski lançam o “Manual de Treinamento Psicológico para o Esporte” (Feevale), obra que fornece subsídios para a comissão técnica e equipe de apoio lidarem com atletas, desde o nível escolar até o alto rendimento. Nessa mesma linha e um pouco mais ampliado, Benno Becker Jr. lança em 2000 o “Manual de Psicologia do Esporte & Exercício (Novaprova).
Como disse no início, a produção em psicologia do esporte já é vasta e não pára de crescer. Falamos aqui apenas de algumas obras de autores nacionais que estão estudando e atuando em psicologia do esporte há algum tempo, esforçando-se para concretizar aquilo que parecia ser um sonho. Existem ainda vários títulos que aproximam o esporte da Psicologia por intermédio de uma modalidade, como “Competência Emocional” (Ed. Gente, 1998), de Suzy Fleury, e “Psicoenergética Aplicada ao Esporte” (Letras e Letras, 1996), de João Roberto de Souza. Eles relatam experiências ou o uso de técnicas e linhas de intervenção específicas, mas que não discutem a psicologia do esporte enquanto área de atuação e campo de intervenção. O tema é amplo e está longe de se esgotar.
Katia Rubi
Conselheira do CRP SP